Para que todos tenham vida

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Em Dezembro celebramos o nascimento de Jesus e hoje seria, por tradição, o dia de Maria.

Maria é, para mim, a “personagem” mais inspiradora da Bíblia. Não por ter aceitado ser mãe do filho de Deus (quem acredita, acredita, quem não acredita, tente ver para além disso), mas por ter “permitido” que o seu filho morresse.

Mãe nenhuma devia ver um filho morrer. Mãe e pai, claro!

Imagino que já todos tenhamos dito esta frase alguma vez. Estou certa, também, que a indignação (é mais que isso… é revolta!) que eu sinto, perante uma mãe que tem que enterrar um filho, é um sentimento comum à generalidade das pessoas com coração.

Vou falar nas mães, porque o paralelismo que hoje faço é com a força da aceitação de Maria, mas estou certa de que os pais sofrem na mesma medida.

Afinal, é contra as próprias leis da natureza. Pais são, por definição, geradores de vida.

Cresci num colégio cujo lema, inspirado no Evangelho de São João, era (e ainda é): “para que todos tenham vida”.

Talvez porque desde muito pequenina senti um apelo fortíssimo à maternidade, sempre gostei imenso de fazer parte deste projecto que, seguindo o exemplo de Maria, nos incumbia a todos de uma missão: gerar vida.

Este apelo era tão forte que um dia, tinha eu dois anos e picos, os meus pais tinham acabado de me deixar em casa da minha avó e a Lulu, que tomava conta de mim, perguntou-me se queria leite com pão para o pequeno almoço e eu, apesar de já nessa altura ser gulosa na quinta casa digo-lhe, com a mão na barriga e o ar mais enjoado que consegui fazer: “Não, obrigada Lulu, estou muito mal disposta. Acho que estou grávida!”. A pobre da Lulu que já não era novinha, ia tendo um ataque de coração! A pirralha de dois anos, grávida!! Mas a verdade é que, real ou imaginária, eu sempre me senti muito mãe.

Sempre disse a mim mesma que, mesmo que não pudesse ter filhos biológicos, iria ser mãe. Desse por onde desse. A adopção é, aliás, um sonho que sempre fez parte do meu projecto de vida. Por isso é que Maria aceitar um filho que, à partida, não seria seu, nunca me impressionou demasiado.

Mas lembro-me perfeitamente de estar na catequese e, ao falarem da morte e ressurreição de Jesus, a primeira coisa que eu pensei foi: “Então e Maria?!”.

E assim como naquele dia – é engraçado como há coisas que fazem mesmo parte no nosso ADN e não mudam, ainda que os anos passem – também hoje, num mês em que tudo está de olhos postos no filho, a minha reflexão fica presa Naquela mãe.

É que no Natal celebramos o que celebramos, porque houve uma mulher disposta a gerar um filho que morreu cedo demais. Com um propósito, é certo (como todos os outros, estou certa também), mas morreu.

Penso em Maria e em todas as outras mães que, tal como Ela, tiveram (ou têm, porque suponho que seja um processo contínuo) superar o insuperável.

Não tenho qualquer veleidade que saberei descrever o que se sente numa situação dessas. Não tenho mesmo. Aliás, li outro dia algures que quem escreve sobre isto não faz ideia do que se sente e quem sabe o que se sente, porque o viveu, dificilmente será capaz de escrever sobre isso.

Apenas escrevo sobre os casos que, infelizmente, testemunhei. Um deles, há bem pouco tempo e tem-me feito pensar e repensar na sorte que tenho e na injustiça que é que não a tenhamos todas.

E dou-me conta que, se por um lado são estas as mortes que me fazem questionar a existência de Deus, por outro, são estas mães e estes pais, que me fazem acreditar que existe algo maior do que nós mesmos.

Pessoas como nós que sobrevivem a estas situações sem perder o olhar meigo, a palavra amiga, o gesto carinhoso têm de ter algo de verdadeiramente inabalável dentro delas. Não sei se já eram assim antes ou se a situação fez com que assim se tornassem, mas são pessoas de uma força inacreditável. Sobre-humana, arriscaria eu!

E acreditando, de uma coisa estou certa: todas estas mães vão, um dia, poder voltar a abraçar os seus filhos.

Por isso, neste dia de Nossa Senhora, resolvi que este ano a Maria do meu presépio não se vai chamar só Maria. Vai chamar-se Rita. Hilda. Carmo. Gabriela. Madalena. (E muitos outros nomes de pessoas que trago no coração).

Vai ter o nome de todas as mães que passaram por aquilo que mãe nenhuma devia passar.

“Para que tenham vida.”

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Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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