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Oito anos.
Oito anos de uma saudade imensa.
De uma ausência profundamente sentida.
Oito anos sem a ouvir dizer “minha menina”.
Sem ter conhecido os “meus meninos”.
Ia gostar tanto deles, avó!
Deliciar-se-ia com a sensibilidade do seu homónimo e acharia a maior das graças ao ar safado e gozão do Didi.
Imagino-a a partilhar comigo o orgulho desmedido pelas coisas mais banais que fazem deles especiais!
Tenho a certeza que me reveria neles e seria bom – tão bom! – ouvi-la dizer aquilo em que saem à mãe.
Oito anos sem as nossas conversas infindáveis sobre tudo e sobre nada. Sem eu lhe levar a minha vida e, com isso, permitir-lhe viver mais, através de mim.
Oito anos sem consolo.
Sem rirmos ou chorarmos juntas. Agora quando choro, choro sozinha e não a posso abraçar, se estiver triste.
Oito anos sem ir a essa casa onde fui verdadeiramente feliz. Sem ter voltado a subir aquelas escadas gigantes, com a certeza de que a minha chegada era verdadeiramente desejada.
Oito anos sem colo. Sem o seu mimo, sempre parcial, de quem não sabe ver os defeitos dos que ama de forma incondicional.
Oito anos com muitas visitas a Cristelo, onde acredito que não esteja, mas repousa. Lá sinto-me próxima e falo (falo muito!), levo-lhe flores e acabo sempre com a sensação de que, por muito que seja bom lá estar, não chega!
Oito anos de saudades que o tempo não curou.Deve ser das mentiras mais bem guardadas do mundo esta de que o tempo cura tudo! É verdade que já não se chora sem parar, todos os dias, mas continuam a haver dias em que parece que falta o ar.
Lembro-me de tudo o que aconteceu há oito anos, neste dia. Lembro-me de como, por alguns minutos, não cheguei a tempo de lhe dizer o quanto gosto de si. Mas a avó sabia. Aliás, sabíamo-nos. Porque a relação que tínhamos não precisava de palavras (embora falássemos muito!), não precisava de festinhas a toda a hora (embora entre nós existisse muito mimo!) e não precisa que estejamos as duas vivas para que o amor permaneça.
Há, de facto, “dias que marcam a alma e a vida da gente” e este em que a avó me deixou será para sempre absolutamente insuportável.
Que passe depressa! Senão a saudade, pelo menos o dia!
A saudade é infinita, é certo, mas também é a certeza de que esteja onde estiver, não estou sozinha, porque a avó está comigo.

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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