cristelo

Lembro-me!

Lembro-me de ir com o pai numa viagem do atelier (a mãe já não podia porque estava prestes “a rebentar”!) e de anunciar alto e bom som, numa mesa cheia de gente, que ia ter um mano porque o pai tinha posto uma sementinha no rabinho da mãe!

Lembro-de de ti ainda na barriga ENORME da mãe e de te pedir que viesses!

Lembro-me de ti recém-nascido, gordo e enorme… (coitadinha da mãe que naquele tempo não havia cá epidurais!)

Lembro-me de te querer pegar e de tu, com 6 meses, seres quase do mesmo tamanho que eu com 5 anos!

Lembro-me de te ouvir cantar o “balão do João” que ficava a “bimbagar”. Só a mãe e eu percebíamos que o João ficava mesmo a “choramingar”!

Lembro-me que me chamavas “Maía”.

Lembro-me do teu primeiro dia de colégio: gorducho, ar de bebezão, cabeça enorme, caninos afiados, mochila pequena azul com bolsos amarelos e encarnados. Estavas contente por ir para o colégio da mana… Pelo menos, até os pais se irem embora.

Lembro-me de, todos os dias, ficar contigo na sala da Lena a brincar até tocar para as minhas aulas e, nessa altura, pôr-te a escrever no quadro, de costas para a porta, para poder sair sem tu veres. Ainda hoje não compreendemos bem como é que isto resultava todos os dias, mas acredita que, todos os dias, subia a rampa com o coração apertadinho sabendo que quando te virasses e não me visses ias dizer “Maía” e eu não ia estar lá! E odiava sentir que te traía, todos os dias!… Mas tinha que ser! Só comigo na sala é que ficavas no colégio!

Lembro-me (esta acho que não sabes!) de passar pela tua sala no meu intervalo da manhã, só para espreitar e ver se estavas bem… Tinha que ter cuidado, porque se me visses começava logo a berraria pela… Maía!

Lembro-me de ti, já bem mais pequenino e magrinho, na primária, a chegares a casa e a esconderes testes atrás dos móveis.

Lembro-me de sermos cúmplices nas idas de táxi para casa… Ficava sem almoçar, só para não termos que fazer o 19!

Lembro-me das nossas discussões pelo telefone! E do pai arranjar uma linha só para nós que tínhamos que gerir sob pena de pagarmos com as nossas mesadas! O número dos pais acabava em 79 e o nosso em 80. Lembras-te?

Lembro-me de ti, armado em pintas, quando foste para o liceu. Sempre foste giro, miúdo!

Lembro-me de ter ficado com o coração do tamanho de uma ervilha quando soube que tinhas tido um acidente de mota em Azeitão.

Lembro-me de seres meu padrinho de casamento e de me teres estragado a noite de núpcias por te teres abraçado a mim a chorar quando, naquele dia, já perto das 6 da manhã, me estava a despedir das pessoas para me ir embora. Tinha estado tão envolvida na preparação que não tinha pensado, até esse abraço, que casar significava deixar de viver contigo… E deixar de estar lá para tomar conta de ti!

Lembro-me de, nos primeiros tempos de casada, me fazer falta o teu ruído. A música aos berros, as cantorias no banho, as piadas secas a toda a hora… Tudo aquilo com que refilava em casa dos pais… De repente, fazia-me tanta falta!

Lembro-me da tua reacção quando te contei, à porta de casa da avó Nela, que esteva à espera do MM. Da tua cara quando te disse que serias o padrinho dele.

Lembro-me do teu ar comovido e compenetrado no dia do baptizado.

Lembro-me de ser tua madrinha de Crisma, ou melhor, do “Bruno”, que tu, Nuno, nunca chegaste a receber o Crisma! Lá estava, com o MM com meses e o DM com outros tantos, na barriga!

Lembro-se de ficar muito contente porque ias casar! Lembro-de do dia do teu casamento e do nervoso e feliz que estavas. Tu e todos nós!

Lembro-me do dia em que, depois de muitas ameaças (só tu, meu palerma, para brincares com estas coisas!), era mesmo verdade que o V vinha a caminho e do dia em que me convidaram para ser madrinha dele.

Lembro-me, como se fosse hoje, de cada minuto do dia em que foste pai e nunca hei-de esquecer a tua cara a vires com o teu filho do bloco.

Lembro-me do dia em que o V foi baptizado e em que, curiosamente, trocámos um olhar muito parecido com aquele que tínhamos trocado 7 anos antes, no baptizado do MM.

Um olhar que é só nosso, porque no fundo, para além de tudo isto que aqui deixo, há MUITAS outras coisas que só nós dois vivemos. Tivemos infâncias diferentes, é certo, mas nunca ninguém compreenderá melhor as nossas histórias do que… nós.

Agora que já estás a ficar crescido, quero que saibas que ADORO ter-te como companheiro desta viagem, que me saíste bem melhor do que a encomenda (passava a vida a pedir manos aos pais!) e que adoro lembrar-me de tudo isto.

A idade adulta tem demonstrado que nem sempre é fácil manter as relações fortes… Os desafios são mais que muitos. Mas enquanto nos lembrarmos de tudo isto, estou certa que continuaremos a acumular coisas para lembrar.

Lembrar é bom, sobretudo porque sei que te tenho aqui pertinho. Daqui a 30 anos volto a escrever… E então aí é que vai ser!

Lembro-me de ti, porque te trago aqui.

 

 

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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