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Como é que se ama com bagagem?

A pergunta não é de retórica.

Como é que, chegados a determinada fase da vida que pode ser mais ou menos tardia (mas diria que, mais coisa menos coisa, os 30 são uma boa “fronteira fictícia” para o estudo da hipótese) se pode voltar a amar como se amou pela primeira vez já na idade adulta (porventura na casa dos vinte) e, na mais pura ingenuidade, se jurou amor eterno a alguém?

Como é que, depois de se ter jurado que seria para sempre a uma pessoa, se pode jurar… outra vez, a outra?

Tipo “desta é que é, juro!”?! Isto pega??

Mas a verdade é que se a vida é uma contínua sucessão de oportunidades, há coisas em que não haverá outro remédio senão mesmo começar de novo. E, porventura, voltar até a jurar, sim!

… Ou não?

Ainda há pouco escrevi um texto sobre “RECOMEÇOS” que, se fosse hoje, já não escrevia. Pelo menos assim.

Digamos que o “Aos (re)começos da vida” está para o iPhone 6, assim como este estaria para o 6S… Digamos que é uma-espécie-de-upgrade!

É que este fim-de-semana tive uma pequena epifania! Destas que são um passo insignificante para a humanidade, mas um gigantesco para a Mary!

Ao contrário do que defendi no princípio de Setembro, temos de parar de RECOMEÇAR!

Temos de C O M E Ç A R. Ponto.

Jogos de palavras, porventura, mas não deixa de ser verdade que as palavras encerram em si significados diferentes. É que se REcomeçar transmite a ideia de um REtomar da linha condutora que se estava a seguir, já COMEÇAR é “zerar” a quilometragem e assumir, com tudo o que isso implica, que se vai começar uma viagem nova.

A primeira parece ter subjacente sempre uma comparação inconsciente entre um antes e um agora. A segunda, não. Quando se começa, é como só se contasse daqui para a frente.

Imaginem este exemplo para-lá-de-estúpido (os homens que me desculpem, mas os próximos parágrafos do texto, só farão sentido se personificando o “sector feminino”): um dia ficamos sem bateria no carro, temos um mini-ataque de histeria (mini!!! que há coisas que não merecem as nossas rugas!) e somos salvas pelos senhores do reboque que, quais super-heróis (isto é nos sonhos, porque na vida real normalmente “saem-nos” uns gorduchos, oleosos que mascam pastilha de boca aberta enquanto soltam perdigotos e dizem uns quantos “prontos”!), que aparecem lá com dois cabos mágicos e o carro fica outra vez a andar e então…

REtomamos o caminho, voltando à rota que tínhamos traçado. E como somos demasiado preguiçosas para ir à oficina, preferimos andar sempre a pensar na bateria que já foi abaixo uma vez e que, mais dia menos dia, vai voltar a pifar, do que tirar umas horas para pôr o carro a arranjar, para ter a certeza que fica como novo. Talvez ninguém goste muito de ir à oficina…

(Desculpem mas não resisto a um parêntesis para-lá-de-ridículo que sempre tive vontade de partilhar: não sei se é dos inúmeros calendários com todo o género de “meninas pouco compostas” nas paredes, mas nunca me sinto tão nua como quando entro sozinha – sim, porque quando vou com o Senhor meu pai isto não acontece! O respeitinho é bonito e eles gostam! – numa oficina e o mecânico, antes de pegar na chave do carro, olha para mim fixamente, como se tivesse visão RX. Mas tudo bem. Não é agradável (até porque ele não é propriamente o George Clooney!), mas não é o fim do mundo! Mais ou menos constrangimento queremos é deixar lá o carro e vir embora… Mas a coisa fica verdadeiramente mais “hardcore” quando começamos a explicar qual é o problema do carro e, de repente, por causa do som da nossa voz feminina (que ali no meio da lataria deve ter o efeito do canto das sereias!), começam a aparecer, saídas sei lá de onde, milhares de cabecinhas escurecidas pelo óleo. Espreitam detrás dos pneus, deslizam debaixo dos carros, saem de dentro das máquinas… E num sítio onde parecia estarmos só nós e o mecânico-com-visão-RX, de repente, há uma multidão de seres acizentados e olhos meio esbugalhados que olham para nós como se fôssemos… O “Wally”?! Depois deste devaneio, ‘bora lá fechar o parêntesis, para ver se eu não digo muito mais asneiras!)

Retomando (estão a ver, aqui o “RE” faz sentido, porque eu vou voltar à ideia anterior!): se, ao invés de nos contentarmos com a energia dos cabos do amável senhor do reboque, ganharmos coragem e formos à oficina pôr uma bateria nova – e quem diz baterias, diz todas as peças que forem necessárias, incluindo o motor e os pneus – e pusermos o carro o mais próximo possível do seu estado inicial, aí estamos prontos para COMEÇAR uma viagem nova, sem estar sempre com medo que a bateria acabe, que o motor pife ou que os pneus se furem!

A analogia é péssima, eu sei! Não me ocorreu melhor e isto não é fácil de explicar! Até porque não percebendo eu nada de carros, posso ter dado exemplos muito infelizes, mas o que eu quero dizer, acima de tudo, é que nós – pessoas! – podemos não conseguir apagar a quilometragem que temos (30 anos são 30 anos, 40 são 40 and so on…) mas se, tivermos consciência de que nem tudo o que trazemos são peças de origem, talvez possamos fazer um esforço por nos aproximarmos mais da nossa essência, antes de começarmos uma viagem nova com alguém.

Dá para perceber onde quero chegar?… Amar com bagagem!

É que a partir de determinada idade:
1. já sofremos;
2. já temos uma história que nos marcou, acabou por moldar e nos transformou na pessoa que somos hoje;
3. já trazemos (alguns de nós), dentro das malas, filhos (que às vezes são desrespeitosamente apelidados de brinde!… Já lá irei!);
4. já conhecemos pessoas que fizeram parte das nossas vidas e, por isso também, estão escritas na nossa história;
5. e já carregamos connosco outros tantos quilos de bagagem!

Sobre os “brindes” – expressão que me “encanita” (quase tanto como o próprio “encanitar”!) – apenas tenho a dizer que obviamente que os nossos filhos, porventura mais do que qualquer outra “coisa”, fazem parte de nós e contribuíram para a nossa definição enquanto pessoas e, por isso, de forma alguma, podem ser encarados, por qualquer um dos lados, como “acessórios”. Quem se apaixona por alguém com filhos tem de perceber que “gostar-um-bocadinho-porque-passa-pouco-tempo-com-eles” não basta!

O motivo é simples: é porque as pessoas não “TÊM” só filhos. As pessoas, ao terem filhos, passam a SER mães e pais. Não “têm” nada de acessório. Passam a SER (também) “aquilo”. É óbvio que nem tudo são rosas e pode haver relações complicadas com os filhos das pessoas de quem se gosta, mas isso não quer dizer que não haja vontade e capacidade para os amar. Pouco importa se são filhos de outro/outra! São filhos de quem se ama. Ponto.

Por isso, e porque – infelizmente! – são cada vez mais os divorciados com filhos, talvez devêssemos acabar com a expressãozinha palerma de dizer que aquele ou aquela “vem com brinde”. “Brinde” talvez seja dar ao outro lado o “head start” de ter a antevisão de ver o outro(a) no papel de mãe ou de pai. E eu diria que esse, sim, é um “ganda brinde”! Diz muito sobre as pessoas, pelo menos…

Li outro dia que coração era terra de ninguém até ser ocupado. É um bocado assim, de facto. Mas eu diria que para que alguém ocupe um território que é nosso, é necessário, no mínimo, que tenhamos as fronteiras abertas. É preciso, portanto, que estejamos “dispostos”. Como dizem os brasileiros, não adianta forçar para que dê samba!!

E, estando receptivos, eu acho que o importante é tomarmos consciência de toda a bagagem (boa e má) que levamos e ir aprendendo a ver o que dessa bagagem é efectivamente nosso (porque faz parte da nossa essência) e o que acabámos por apanhar pelo caminho, a reboque de uma ou duas más experiências que já possamos ter tido.

O desafio está em saber distinguir o essencial do acessório e guardar apenas aquilo que nos define e que queremos entregar a alguém com quem queiramos, verdadeiramente, COMEÇAR alguma coisa.

“Giro” era se isto fosse fácil!!… Já alguém tentou VERDADEIRAMENTE voltar a ser aquilo que era, na sua essência, antes de ter sido desiludido, magoado, ou, de alguma forma ter sofrido por amor?

É essa a minha pergunta!

Como é que se COMEÇA com bagagem? Mas começar, começar! Não estou a falar de um simples REcomeço!

Gabriel García Marquez diz que “La memória del corazón elimina los malos recuerdos y magnifica los buenos y gracias a ese artificio logramos sobrellevar el pasado”. Será?

Penso que passará, por aqui, sim: por uma capacidade quase sobre-humana que o nosso coração tem (qual universo, quais planetas, quais estrelas, não há nada mais espectacular que o coração humano!) de, por amor, nos trazer de volta à nossa essência, permitindo-nos nascer para uma nova relação e tentar, ao máximo, começar tudo de novo. Por amor… atenção!

Só assim estaremos a dar uma verdadeira oportunidade à outra pessoa, à relação que começa e a nós próprios.

Assim sendo, parece que para amar “com bagagem” talvez seja preciso amar com mais força, para aguentar o peso da “bagagem”.

Ou, melhor, amar melhor.

Porque ao ser mais realista, menos idealista, é forçosamente um amor mais exigente e bem mais difícil. Mas não necessariamente pior! Antes pelo contrário.

Aliás, alguém que admiro muito costuma dizer que o amor-adulto, o amor-maduro é o Rolls Royce dos “amores”.

Amar com bagagem é, de facto, mais complicado e, talvez por isso, só os mais maduros e experientes o consigam.

Os mais experientes, aqueles que já têm… bagagem! Estão a ver?

 

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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