Aos (re)começos da vida

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Aos (re)começos da vida.

Ele há coisas difíceis de explicar!

(Desculpem, sempre quis começar um texto assim! Ele há…)

Mas é que há mesmo! A vida tem coisas muito difíceis de explicar e outras que, por muito que se explique, serão sempre verdadeiramente incompreensíveis.

Hoje foi dia de mais um (re)começo. Felizmente, a vida está cheia deles!

Foi dia de acordar muito cedo, de andar a correr de manhã (porque afinal não se acordou tão cedo quanto se deveria!) e de voltar ao colégio.

Se para nós, pais, é emocionante, imagine-se lá o que se passará dentro daqueles corações e daquelas cabeças, a abarrotar de sonhos e a transbordar de expectativas!

O MM lá ia todo contente com a sua mochila de rodinhas oferecida pela avó para o segundo ano, e o DM, geralmente bem menos introvertido, “recolheu-se” e oscilava entre o ansioso, o amedrontado e o entusiasmado… Afinal, passou da infantil para o primeiro ano!

É oficial, já não há bebés nesta casa, só homens que já andam no ensino primário! Se dúvidas houvesse…

É lugar comum, bem sei, mas o tempo passa depressa demais!

Por isso é que, às vezes, não entendo quando me dizem “take it slowly”. Ou por outra, compreendo perfeitamente (1) o que me querem dizer, (2) porque o dizem e (3) porque o dizem a mim (afinal, os meus amigos conhecem-me!)… Só não sei se concordo!

Bem sei que esta minha forma de me atirar de cabeça para tudo onde decido meter-me já me valeu uns valentes “galos”. Alguns dos quais me deram dores de cabeça que, quando achava que estavam curadas, saída sei de lá de onde, volta a enxaqueca!

Mas será que é pelas nódoas negras de, um dia, nos termos espetado de bicicleta, que nunca mais nos vamos sentar num selim e pedalar como senão houvesse amanhã?! Eu sei que indo devagar o risco de nos magoarmos é menor. Eu sei. Mas, com o tempo a passar a esta velocidade alucinante, às vezes pergunto-me se ir devagar não é uma forma de perder tempo.

O meu filho DM, que entrou hoje na primeira classe, está a pensar que, porventura, amanhã já saberá ler. É pouco provável, é. Mas não é impossível. E não é impossível não só porque ele teve uma educadora de infância que lhes ensinou tudo e mais alguma coisa, mas sobretudo porque a criança é para lá de curiosa e estava sempre atenta ao irmão a fazer os trabalhos de casa. E, ao ver o irmão a ler, eu vejo-o a olhar para o livro e a mexer os lábios. Aliás, em abono da verdade, eu acho que ele já sabe ler, só que ele ainda não sabe que sabe. Tipo Dumbo a aprender a voar. Só precisa da pena mágica!

Tudo isto para falar destes (re)começos da vida (quaisquer que eles sejam! Não tem que ser só mais um ano lectivo…), das expectativas que depositamos e da velocidade com que encaramos o que vivemos.

As expectativas são tramadas! Mas mais tramado ainda é dizerem-nos (me!) para não criar expectativas!

O meu filho DM, a propósito de outra coisa qualquer, outro dia disse-me: “se a mãe fosse assim, era um bocado alienígena”! Ora, pegando nas palavras do meu douto filho, se não criasse expectativas, eu Mary, era um bocado alienígena!!!

Como é que se pode viver o que quer que seja, sem esperar… tudo?! Como??

E se se espera tudo, como não ter urgência de viver? Não é pressa. É urgência. E é diferente!

Porque o tempo não é infinito, porque as pessoas mudam ou morrem ou sei lá mais o que é que lhes acontece…. E porque, ao contrário do que muitas vezes nos achamos, nós próprios também não somos imortais. Como não ter urgência?!

Lá está, é um daqueles momentos em que eu adorava ser das pessoas que sabem sentir com contenção e com razão… No fundo, com conta, peso e medida!

Não sou assim. Nunca fui! Não sei amar com conta, não sei pesar o quanto gosto e, muito menos, medir aquilo que vivo.

Eu quero viver. Quero ter tempo para viver. Quero amar. Os meus. E permitir-me sentir o amor que tenho por cada um deles.

Não raras vezes, quando nos (me!) pedem “calma”, sinto que o fazem – sem os próprios perceberem – pelo motivo errado. Não acho que tenhamos de ter calma para nos defendermos de quedas futuras com medo de trambolhões passados.

Acho que temos de ter “calma” para ter a certeza que estamos a viver tudo aquilo que a vida tem para nos oferecer. E que não fiquem dúvidas, ao olhar para trás, que nenhum sorriso ficou por esboçar, nenhum abraço ficou por dar e que nada, absolutamente nada, ficou por viver… that we’re not missing out on anything!

A primeira pessoa que me disse que era melhor arrependermo-nos de algo que tivéssemos feito do que passar a vida toda a perguntar porque não o fizemos foi a minha amiga Ana. Éramos miúdas. (Tu provavelmente não, mas eu lembro-me perfeitamente, Ana!). Estávamos no colégio e lembro-me que na altura achei aquilo tudo um bocadinho… pouco seguro! Oh, Ana… Logo tu?!… Mas então… E se?!…

Mas (como sempre) a Ana tinha razão. Que o receio de errar não nos impeça de viver! Afinal, estamos todos a aprender e a (re)começar, seja o que for.

Às vezes dá medo, dá! Mas enche-se o peito de ar e vai-se com medo mesmo!

Assim como o DM entrou na sala do primeiro ano já cheia de meninos (mea culpa que me atrasei de manhã!) e, com um sorriso nos lábios, disse um valente “olá a todos, eu sou o DM!”.

Watch and learn, Mary! Watch and learn!…

Olho para eles e acho-os crescidos. Aliás, olho para nós e acho-nos, aos três, muit’a crescidos! Tem sido uma caminhada e pêras!

E no meio dos dias menos bons – e alguns incrivelmente maus! – há dias em que a vida nos sorri e parece renovar-se.

Ele há dias em que a vida se compõe.

Ele há…

 

 

 

 

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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