SURREALISMO: “como gostava que as coisas sejam”.

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Depois de hoje ter visto, não um, não dois, mas três Miró na colecção da Peggy Guggenheim, foi impossível não me lembrar da conversa surreal (a palavra não podia ser mais apropriada!) que outro dia tive com o meu filho mais novo.

Tudo começou quando o DM, a meio do jantar, resolve perguntar ao irmão:

D – MM, gostas de Miró?

Eu, que estava, descansada, a meio da minha sopinha, quase me engasguei!

M – E tu, DM, gostas de Miró?

DM – Gosto, mãe! E a mãe?

What???? Tens 5 anos, miúdo!!

M – Gosto, DM… Sobretudo da fase surrealista.

DM – Ah, essa também foi a parte que eu gostei mais!

Really?!.. Toda esta perplexidade se passa internamente porque, por fora, continuo com o ar mais normal do mundo como se estivéssemos a discutir o último filme da Disney.

M – Ah, sim, DM, então porquê?

DM – Porque eu também gosto de pintar assim.

M – Assim, como?

DM – Assim… Sem ser de verdade… Mas como eu gostava que as coisas sejam.

Oh, filho, deve ser tão divertido viver dentro dessa cabecinha!!!

Já para não falar no delicioso pormenor do erro gramatical no meio de uma conversa transcendental sobre arte.

Não contente, decidi tentar perceber até onde tinham aprendido.

M – Então e Miró é de que país?

DM – De França.

M – De França? Olha que não…

DM – Ah, sim, sim!!!

Altura em que a mãe da criança, apesar de ter 90% de certeza que Miró tinha nascido em Barcelona, acha prudente pegar no telemóvel debaixo da mesa e ir googlar… É que, para este menino estar a dizer isto com esta convicção toda, das duas uma: ou tem alguma razão, ou está literalmente a gozar com a minha cara e, em qualquer das hipóteses… era melhor confirmar!

M – Não, DM, Miró nasceu em Barcelona.

DM – Ah não, não!!! Então como é que conheceu o Picasso em Paris??? Paris é em França, não em Espanha!

Ora bem… O que é que se responde a uma coisa destas???

A criança tem cinco anos e, numa conversa casual de cinco minutos, demonstrou saber quem era Miró, o que é o surrealismo, saber que Miró conheceu Picasso em Paris e saber também que Paris fica em França e Barcelona em Espanha…. Spooky!

E a mãezinha dele, entre a perplexidade da conversa e a baba que caia em abundância com orgulho da criança, fica sem capacidade de resposta!

O meu filho não é um génio. Não é. Nem conto esta história para dizer se o considero, ou não, uma criança inteligente, Não é disso que se trata. O DM é uma mistura de esponja (como todos os miúdos da sua idade) com (memória de) elefante que faz com que seja possível ter conversas deste “nível”.

O que eu acho absolutamente fabuloso nisto tudo, é que, mais do que saber coisas, ele queira sempre saber mais coisas. O mérito não é meu! Ele tem uma educadora fabulosa, que soube fazer aquilo que me parece fundamental na educação de qualquer criança e que continua a faltar na maioria: despertar a curiosidade.

Deixar nos miúdos a vontade de saber histórias, de ver coisas, de conhecer o mundo, de perceber a realidade que os rodeia e… ter uma opinião crítica.

Acho engraçado como, na maior parte das vezes, a curiosidade é vista como uma coisa má. Passando a redundância, não deixa de ser curioso que haja uma certa tendência para criticar tudo aquilo que nos faz ir mais longe ou ser diferente dos restantes.

Há muito que, lá em casa, sinto que pergunto mais do que ensino. E, à medida que vou crescendo, cada vez mais valorizo perguntas, em detrimento de respostas.

Afinal, de que adianta ter muitas certezas na vida, se não tivermos feito as perguntas certas?

É giro ver um miúdo de 5 anos a falar sobre Miró e surrealismo.. é, não vou negar!

Mas confesso que, desta conversa toda, o que mais me enche o coração, é saber que estou a criar um miúdo com espírito crítico que olha para um quadro, seja ele qual for, e sabe dizer que gosta do que vê, porque também ele gosta de pintar assim: não exactamente como as coisas são, “mas como gostava que as coisas sejam”.

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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