Os pais não são perfeitos!

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Se há coisa que me “incanita” nestes “dias institucionais” é a tendência que temos para transformar comuns mortais em santos. Só porque sim.

É um fenómeno frequente nestas datas festivas, mas manifesta-se em toda a sua plenitude quando alguém morre. Nos velórios, o “mau feitio” do falecido (palavra bonita) transforma-se em “personalidade vincada”, a sua “falta de graça”, em “grande sentido de responsabilidade”, a ausência de amigos no facto de ser uma pessoa reservada e, de sentimentos até então inexistentes, há quem consiga fazer jorrar lágrimas de saudade. Eu não sou assim. Podia ser um bocadinho (porque às vezes dá muito jeito ser-se politicamente correcto!), mas não consigo.

E o que me leva a escrever aqui, hoje, é justamente a minha indignação perante o facto de, no dia do pai, todos os pais serem – de iure condito – óptimos pais.

Como que por magia, no dia do pai, todos nós passamos a ter os melhores pais do mundo e, quando infelizmente já não os temos ao pé de nós, canonizamo-los.

Quem me conhece sabe que sou demasiado transparente e contestatária para aceitar as coisas assim… Conditas!

Que levante o dedo quem acha que o seu pai é um santo! Que levante o dedo quem acha que o seu pai é perfeito! Que levante o dedo quem acha que o seu pai fez tudo bem e nada poderia ter feito de forma diferente! Que levante o dedo dedo quem nunca se zangou (mais ou menos “à séria”) com o próprio pai!

Ainda está alguém de dedo levantado???

Pois é. É que os pais não são santos. Os pais não são perfeitos. Os pais não fazem sempre tudo bem. E pais haverá, que nem pais sabem ser!

Porque a verdade é que isto de ser pai não se aprende na escola. Os filhos não ensinam quando chegam e não explicam à medida que vão crescendo e, apesar de saber que é uma opinião controversa, eu não acho que baste amar os filhos, para se ser (bom) pai. É a tal conversa do “não basta amar, é preciso saber amar” que não me canso de repetir.

E resolvi, hoje, entrar por aqui, não porque tenha um mau pai – não tenho! – mas porque tenho um pai  que, por não ser perfeito, já me ensinou muito mais do que se porventura o fosse.

Hoje, com quase (repito, quase!) 35 anos, digo sem qualquer constrangimento, que o meu pai não é perfeito – desculpe, pai, mas não é! – mas é real e é o MEU PAI e, só por isso, é o melhor pai que podia ter tido.

Acredito mesmo – embora seja uma descoberta muuuuuuiiiito recente – que todos temos os pais que era suposto termos tido e que os nossos pais são os melhores que nos podiam ter “calhado”.

Com isto não quero dizer que a relação entre pais e filhos não possa ter os seus altos e baixos, porque tem. Quero dizer, sim, que os nossos pais nos fazem passar, com eles, pelos altos e baixos que era suposto que passássemos para que nos pudéssemos tornar nas pessoas em que nos tornamos, todos os dias um bocadinho mais.

E há uma altura em que percebemos que aprendemos tanto (ou mais!) com as suas qualidades como com os seus defeitos e que, muito do que somos devemo-lo a esse “cocktail” que herdámos geneticamente, mas que recebemos, de forma muito mais marcante e incisiva pela vida fora, como que por osmose.

Afinal, ninguém aprende com conselhos, mas sim com exemplos.

Nesta altura da vida, já todos – pais e filhos – percebemos que a vida não é linear, nem plana! E assim, tal como me empurrava pelas rampas do colégio acima até chegar à minha sala, ainda hoje o meu pai me faz percorrer caminhos (alguns dos quais) tortuosos. Mas não faz mal, desde que acabemos sempre por chegar ao lugar a que pertencemos: juntos.

Porque são reais.
Porque são os nossos.
Gostamos deles, tal como são.

Dizem que não os escolhemos.
Eu acredito que sim. Eu sei que é estranho, mas acredito.

Até porque se me perguntassem de novo, voltaria a escolhê-lo a si, pai!

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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