Tu não falas assim comigo, mulher!

Mini Sessões Natal - 020 2

Ora bem… Confesso que nem sei muito bem como começar.

Então não é que meu o mai’velho noutro dia se saiu com uma que me deixou de queixo caído?!

Estou a falar do MM, que é sempre o cúmulo do bom comportamento e da boa educação! O “outro” já nos preparou para alguns dos seus “devaneios”, mas “este”?!

A história foi assim: estava eu no duche, na casa de banho que fica mesmo em frente ao quarto deles. Qualquer mãe que esteja em casa sozinha com os filhos pequenos sabe que tomar banho de porta fechada é um luxo, ao qual só se tem acesso naquela janela temporal em que as crianças viram anjos e estão… a dormir!!

Não era o caso. Eu estava no duche e eles estavam a brincar no quarto, mas claro que, de 5 em 5 minutos, alguém se lembrava que eu estava ali mesmo “à mão” e:

DM – Oh mãe, o MM tirou-me o SQUIRLET e, assim, vou perder a luta porque deixei de ter o poder da água porque ele está com CHARMENDER, que tem o poder do fogo!!!

Quero lá saber!!! Deixem-me gozar o meu banhinho de água quente!!!

M – Ah, sim? Que chato…

(com a convicção de qualquer pessoa que tenta defender a inocência de Sócrates!)

Se ainda me viessem dizer que havia um problema entre pinipons e barriguitas, eu saberia resolver, mas nestas coisas horrorosas a que os rapazes brincam nem me meto!!! Ou melhor, até meto, mais sai sempre asneira:

M – Oh filho, usa o outro… O verde com as armaduras azuis. Como é que se chama??? TIR…

DM – Acha, mãe, acha?!?! O TIRTUGA também é tipo-água!

Desisto! Nem vale a pena!! Eu é que estou na água e quero que me deixem em paaaaaaz!!!

Bem, mas voltando ao que me trouxe aqui: de dentro do duche, ponho a cabecinha de fora, olho para eles e digo:

M – Vão calçar os sapatos que o pai deve estar a chegar, sff.

Nada. Continuavam na dimensão dos CHARMENDERS e afins.

M – Meninoooooos, calçar os sapatos!

Nada. A tal dimensão não faz contacto com terra.

M – MM e DM, calçar os sapatos imediatamente!!!!

(num tom um “bocadinhozinho” mais alto, admito!)

Desta vez, ouço o mais velho, lá de dentro, com um tom entre o gozão e o refilão:

MM – OH MULHER, TU NÃO FALAS COMIGO ASSIM!

Como??? Agora devo ser eu a estar na dimensão errada! Saio do banho que nem uma flecha embrulhada numa toalha, vou ao quarto deles e pergunto:

M – O que é que tu disseste, MM?

Responde-me com um ar gozão, mas assertivo:

MM – NÃO FALAS ASSIM CONNOSCO, MULHER!

Claro que desatei a rir, porque o conheço, sei que estava a brincar e o tom era hilariante!

M – Eu sei que estás a brincar, MM, mas quem não fala assim com a mãe és tu! Nem com a mãe, nem com mulher alguma!!!

Aparentemente a criança estava a imitar uma fala de uns desenhos animados quaisquer (Tchin-Tchan?) que, depois de ter visto uns episódios, a censura decidiu banir lá de casa!

Tudo isto para introduzir um tema sobre o qual tenho andado a pensar nos últimos tempos.

Há gente estranha. Homens e mulheres, é certo. Eu confesso que conheço mais homens com “pancada” do que mulheres, eventualmente porque estarei mais atenta a todos os pormenores, admito.

Mas o que me fez reflectir sobre isto foi, precisamente, o facto de ter dois filhos rapazes.

É lugar comum dizer-se que as raparigas são mais difíceis de educar, apesar de os rapazes serem mais reguilas.

Dizemos isso enquanto eles são crianças, mas, depois, sempre que encontramos defeitos num homem já crescidinho, não nos coibimos de fazer as mais mirabolantes relações que determinada “pancada” pode ter a ver com a forma como foi educado e por quem! Por quem?… Digam lá!!!… Pela mãezinha dele!!! É que depois, ainda por cima, a culpa é SEMPRE das coitadas das mãezinhas!

Ah, pois é!!! As raparigas são mais difíceis, mas parece que “estragamos” mais os rapazes.

E as mãezinhas da geração acima da nossa que me desculpem, mas, de facto, há muitos deles um bocadinho “danificados”.

Eu sei que ninguém faz por mal! Os filhos não nascem com livro de instruções e nós, mães, limitamo-nos a fazer o melhor que sabemos, com o muito que os amamos.

Muitas vezes é mesmo esse “muito”, mal direccionado, que acaba por permitir que eles fiquem assim… e assado!

Eu não acredito em “excesso de mimo” porque acho mesmo que mimo e amor nunca fizeram mal a ninguém, mas isso não é, nem nunca foi, sinónimo de falta de educação ou desculpa para ausência de limites.

É a linha que separa o “ter-se sido mimado pelos pais” do “ter-se sido estragado com mimos”.

Meninas da minha geração: não nos podemos queixar dos espécimes masculinos que agora conhecemos na fase adulta e não nos interrogarmos – a sério! – sobre o tipo de HOMENS que estamos a criar.

Eles agora são pequeninos, é certo, mas um dia (por muito que às vezes não gostemos de admitir!), eles vão ser os namorados, os maridos, os amantes… de alguém (que rezamos a todos os anjinhos para que não seja uma qualquer!… Eu sei, também sou mãe!).

Mas, para além dos princípios básicos e dos valores que sempre soubemos que lhes queríamos incutir, talvez não seja mau de todo juntar à equação instrumentos que lhes permitam vir a ser o tipo de homens que nós próprias gostamos de conhecer enquanto mulheres… Os tais Homens, com “H” grande!

Sem caprichos de meninos mimados, corajosos e verdadeiros, confiantes e capazes de se entregarem, sem problemas ridículos de compromisso, independentes, lutadores e, sobretudo – preparem-se porque esta custa! – que não fiquem para sempre agarradinhos às saiinhas da mãe!!!

Sei que não vamos criar super-heróis, mas entre o Clark Kent e os homens de 30 anos que ainda acreditam que os sapatos voam, por milagre, da sala para o quarto, porque quando os deixam desarrumados, eles aparecem sempre no sítio certo (ou outros que têm paranóias bem mais complicadas… Ai, se as fosse enumerar, havia quem ficasse envergonhado!) há o chamado bom senso.

A sério. Agora não custa fazermos as coisas por eles porque são pequeninos… E coitadinhos… E, e, e… Mas se pensarmos bem, eles para nós vão ser sempre pequeninos e, por essa ordem de ideias, nunca aprendem a fazer uma máquina de roupa ou um tacho de arroz.

E, num nível imediatamente acima do das tarefas domésticas de “suporte básico de vida”, há um, ligeiramente superior, ao qual muito poucos chegam, mas todas nós acabamos por querer um assim quando somos crescidas. Estou a falar de os ensinarmos a ser cavalheiros: a dar passagem às senhoras, a não começar a jantar antes da dona da casa, a agradecer o jantar no final da refeição, etc, etc, etc (e nisto cada uma terá o seu grau de preciosismo, claro; eu confesso que sou “um bocadiiiinho” exigente).

Eu sei que pode custar pensar que os estamos a preparar para uma lambisgóia qualquer, que os vem roubar de nós e que, quando isso acontecer, até somos capazes de desejar (ainda que nunca o admitamos!) que eles não as tratem assim tão bem (e seguramente, sempre menos bem do que tratam a nós!), mas pensemos na quantidade de palerminhas (desculpem a palavra, mas dependendo de quem se tem em mente, até pode ser um elogio!) que todas conhecemos e reconheçamos que não queremos que os nossos filhos sejam assim… e assado.

Homens, meus queridos, não fiquem zangados com a Mary! A Mary não tem qualquer problema com o género masculino em geral – MUITO pelo contrário! – mas há, de facto, alguns exemplares que acabam por manchar a reputação de “toda uma classe”… sem necessidade!!! No fundo, no fundo, estou aqui a zelar pelo vosso bom nome, queridos amigos!

Pelo que nós vivemos agora, pelas miúdas que os vão conhecer no futuro, mas sobretudo por eles próprios, ‘bora educar homens, HOMENS?!?!

Será, simultaneamente, um acto de amor e de puro serviço público!

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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