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Todos nós temos dias bons e outros nem por isso.

Deixe-mo-nos de eufemismos, todos nós temos dias que ficaram gravados na nossa história por terem sido mesmo maus!

Eu não me posso queixar. A vida tem-me poupado a muitas tristezas.

Ainda assim, este dia é uma porcaria de dia!

Os anos passam e continuo a recordar, com a precisão de um relógio suíço, o que aconteceu no dia 29 de Dezembro de 2007.

Estava grávida. Tinha sabido há 25 dias que tinha o MM na barriga. O Natal já não tinha sido grande coisa porque a minha avó não estava bem e tinha sido internada. Estava com o meu marido no carro a caminho do hospital da Luz para a ir ver e liguei à minha mãe para saber como estavam as coisas. A meio da conversa, ouço chamarem a minha mãe, que imediatamente desligou. Soube, nessa altura – estava no carro, ao lado do Campo Pequeno, em direcção à Av. de Berna – que provavelmente nunca mais veria os olhos azuis mais doces que alguma vez olharam por mim e, ainda assim, pedi ao F que acelerasse.

Já não cheguei a tempo. Quando lá cheguei, corri para os braços dela, abracei-a com força, chorei, chorei muito, mas a minha avó já não estava lá.

Eu sei que perder uma avó é uma coisa “normal”.

É daquelas mortes que nem sequer dá direito a ficarmos revoltados com Deus porque, afinal, Ele até respeitou a ordem natural das coisas e a minha avó já tinha uma certa idade….

É uma morte normal. De uma pessoa idosa. Que já tinha estado doente várias vezes, que sofria de várias coisas ao mesmo tempo.

Uma morte de uma mulher que teve 6 filhos, 17 netos e chegou a ver 2 bisnetos… Tudo normal.

Tudo normal excepto o facto de a minha avó nunca ter chegado a conhecer o meu primeiro filho que tanto desejámos juntas! O bisneto que veio a herdar o seu nome.

Tudo normal excepto o facto de eu ter perdido a minha confidente e a única pessoa que me sabia ler, de olhos fechados e, por isso, nada mais ter voltado a ser “completamente normal”, para mim.

A morte da minha avó não é um drama, mas é algo que ainda me causa uma tristeza profunda. Ao contrário do que dizem, o tempo não cura tudo e há ausências que nunca se preenchem. O vazio fica para sempre. E continua a doer, uns dias mais do que outros. Não se trata de auto-comiseração ou de arranjar uma escapatória para podermos sentir pena de nós próprios. Nada disso!!! Mas também é importante que, pontual e muito raramente, nos permitamos ficar tristes.

Cá em casa só se chora por dois motivos: uma dor fortíssima ou uma tristeza profunda. No dia 29 de Dezembro tenho dois motivos para chorar. E confesso que hoje já chorei… Na esperança de que as saudades se vão embora!

Sabendo de antemão que as saudades nunca passarão porque aquilo que se viveu será sempre mais forte do que a dor que agora sinto.

Relembraram-me a tempo que passo a vida a dizer aos meus filhos que ter saudades é bom… Talvez me devesse ouvir mais vezes!

Por isso, hoje não vou chorar (mais!) por ter acabado. Vou fazer um esforço por sorrir por todos os momentos que vivemos juntas.

E – apesar de um bocadinho zangada! – vou agradecer a Deus os 27 anos de uma relação extraordinariamente especial – mas tão especial! – que tive o privilégio de viver com a minha – tão minha! – avó Nela.

 

 

A partir de hoje e durante todo o mês de Janeiro, o blogue da Mary vai estar azul.

Assim eram os olhos da Nela.

09.01.1922 – 29.12.2007

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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