Não falta amor. Falta amar. E, sim, são duas coisas diferentes!

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Hoje estava ansiosa por chegar a casa!

Ontem, o meu filho DM tinha-me comunicado de mão gorducha no ar:

DM – Mãe, amanhã tenho um assunto sério para tratar!

M – Ah, sim, DM? Então o que é?

DM – Tenho que perguntar à Q se ela quer ser minha namorada!

M – Tens?!? Mas “tens” porquê?

DM – Porque sim. Porque eu gosto dela!

M – Mas então isso pode significar só que ela é uma amiga especial… Não tem que ser necessariamente uma namorada.

DM – Tem.

M – Porquê, DM?

DM – Porque isso é IM-POR-TAN-TE, mãe!

M – Mas importante porquê, DM?

DM – Porque É.

M – Mas porquê, filho?? Porque é, não é resposta…

DM – PRO-QUE ÉEEEEEEEE, mãe!

 

E ficámos por ali, até porque eu concordo com ele, estava só a ver até onde “ia a coisa”…

Hoje, quando cheguei, entre outras coisas, perguntei-lhe como é que tinham corrido as coisas com a Q. e ele disse:

 

DM – Não aconteceu.

M – Então, DM? Porque não? Já não queria?

DM – Não, mãe!! Eu queria, mas ela nunca mais acabava a sesta e quando saiu do dormitório, eu já estava a ir para as aulas da tarde!

 

Eu sei que não devia, mas não resisti e a gargalhada foi imediata!!! Não se poder pedir alguém em namoro porque ela “não saiu do dormitório a tempo” é… delicioso!

E eu fiquei a pensar: coitadinho do meu filhote! Tão pequenino e já anda com problemas de “timming” !

Confesso que sempre achei essa desculpa dos “timmings errados”, isso mesmo: uma boa desculpa!

Tinha alguma dificuldade em entender a teoria do “és a pessoa certa na altura errada”, mas já vi tanta coisa que, começo a reconhecer que o timming é importante…

É preciso, pelo menos, que as duas pessoas estejam acordadas!!!

E “acordadas” não só enquanto estado físico oposto de “a dormir”, mas também, na acepção de “acordo”, i.e., estarem acordadas em relação ao tipo de relação que querem ter.

É que dizer que se gosta é bonito, o que acontece é que, depois na prática, esse “gostar” tem que ser materializado num tipo de relação em que ambas as partes se sintam confortáveis.

Depois de dizer isto é impossível não me lembrar dos vários amigos de que já ouvi uma frase que continuo sem conseguir entender:

 

“Mary, tens que perceber que estamos no século XXI e agora as relações são assim”.

 

Antes de mais, e para que fique claro, nada tenho contra qualquer tipo de relação em concreto. Não tenho! A vida já me ensinou o suficiente (já engoli muitos sapos e alguns “nunca”!) para este ser o tipo de coisa que não me passa pela cabeça julgar. Não se trata, portanto, de criticar o modelo A ou Y. Acho sinceramente que todos os tipos “de relação” são aceitáveis… Desde que ambas as partes queiram a mesma coisa.

Mas o que constato, muitas vezes, é que esse “acordo de vontades” não existe e há sempre alguém que acaba por consentir… Sem sentir.

E consentir sem sentir é uma forma de estar, não estando que, na prática, mais não é do que uma forma de irmos desistindo um pouco de nós próprios.

Ora bem, é justamente neste ponto – que chamaria de nevrálgico (uh, lá, lá!) – que reside o busílis da questão que me incanita! (isto é que é falar caro! Três palavritas destas na mesma frase, quase que dá direito a gritar: “linha!”)!

É que, por muitos modernos que todos estejamos, as pessoas não deixaram de ter sentimentos e, da última vez que verifiquei (e isto é o tipo de coisas que verifico com regularidade!), toda a gente quer amar e ser amado.

Daí que tenha alguma dificuldade em “digerir” isto de relações do século XXI serem “assim”…

Assim, como? Abertas? Descomprometidas? Às pinguinhas? Intermitentes? Inconsequentes? Desenxabidas?

Sou só eu ou nestes modelos hiper-super-mega-modernos-e-altamente-desprendidos há pouco espaço para o amor?

É que a mim parece-me que estas invenções de supostas relações, mais não são do que uma tremenda dificuldade em confiar e entregar-mo-nos a outra pessoa. E atenção, não estou a dizer que seja fácil!!! Acho, inclusivamente, que vai ficando cada vez mais difícil.

Mas a verdade é que as crianças conseguem fazer uma coisa que parece que, algures along the way, nós perdemos a capacidade de fazer e que é, tão simplesmente, chegar ao pé de quem se gosta e dizer, com toda a transparência que o amor exige e pressupõe:

Olá! Gosto de ti! Queres ser minha namorada(o)?

Descobri recentemente com os outros (num exemplo de se lhe tirar o chapéu!), mas também comigo (e confesso que fico orgulhosa!) que somos valiosos demais para entrar em relações onde não possamos permanecer INTEIROS! Para “caber” nesta ou naquela relação, tenho visto muita gente “aos bocadinhos” e não é bonito!!

Consentirmos ou contentar-mo-nos com qualquer relação na qual não nos sentimos inteiros, é puro desperdício de amor e, em última instância, de vida!

Não é verdade que 50% de alguma coisa seja melhor do que 100% de nada!

Nisto das relações, quando estamos com 50% de alguma coisa, perdemos a possibilidade de ter 100% de… TUDO.

E, sejamos sinceros, todos sonhamos com uns 100% de cortar a respiração!

Ao contrário do que se diz por aí, eu não acho que falte amor. Acho que falta amar.

E, sim, são duas coisas completamente diferentes: a última é um verbo que pressupõe acção e essa acção pressupõe coragem.

Coragem de esperar que ela/ele acorde e, com a voz trémula dizer:

gosto de ti!

e perguntar-lhe

queres ser minha namorada(o)?

 

Quem se atreve???

Não é coisa para tenrinhos, mas como diz o meu filho, É IM-POR-TAN-TE.

Porquê?

PRO-QUE  Ééééééééé!

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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