bra

Há muito que decidi não me irritar com aquilo que considero ser palermice alheia.

Ora bem, conseguir que a palermice não me irrite, ainda vá que não vá, agora deixar de fazer troça é que já é pedir demais… E, por isso, aqui estou eu, a ceder à tentação!

A carne é fraca.

É que este fim-de-semana o SOL oferece-nos, de bandeja, (mais) uma grande pérola de um conceituado jornalista que – valha-nos Deus! – mais do que um jornalista, é um comediante absolutamente genial!

Ai o que eu gosto quando “a nossa praça” se enche de intelectuais esclarecidos que tudo fazem para nos devolver o bom humor!… Assim, sim, vale a pena pertencer à elite letrada!

O texto é chato, longo e maçudo, mas vão por mim, vale a pena ler!!!

Não por ser bom – não é! – mas precisamente porque é pior que mau.

A sério, contado não se acredita!… Vale mesmo a pena espreitar:

http://www.sol.pt/noticia/117635

Para quem não teve tempo ou paciência – eu compreendo, mas não sabem a preciosidade que perderam! – aqui fica um resumo do texto em 18 pontos.

Mais palermice, menos palermice, não foge muito disto (as partes entre parêntesis são desabafos meus… Desculpem, mas não resisti! Foi mais forte do que eu!)

Então o que o Senhor tem para dizer ao mundo é mais ou menos isto:

1) A Lídia Jorge disse outro dia que antigamente as mulheres eram como as galinhas: úteis em tudo e que lia romances em voz alta para a mãe (é isto a que eu chamo um grande começo!);

2) O Senhor gosta muito da Lídia Jorge até porque o Senhor, Seu Pai, também gostava (faz todo o sentido, até porque diz que a estima é hereditária… e o bom senso, não?);

3) As mulheres adquiriram direitos e o dito Senhor acha isso “irreversível e positivo” (mais lá para a frente vamos ficar a perceber o quão “positivo” o senhor acha que realmente foi… É que ainda por cima é incoerente!);

4) Ficamos a saber, em três longos parágrafos, que o pai do Senhor era um grande apreciador de literatura e que preferia autores destros, em deferimento dos canhotos (Grande novidade! E interessantíssima, por sinal! Sentimo-nos todos muito mais sábios.);

5) (Voltamos à vaca fria, salve seja!) A Lídia Jorge era feminista (sim, o Senhor repete-se! Será que é da idade?) e houve umas doidas que decidiram queimar os soutiens e cortar o cabelo, num estilo tudo menos fashion! (que falta de gosto!);

6) Com os soutiens queimados as mulheres tiveram que ir trabalhar para ganhar dinheirinho (Possivelmente para comprarem lingerie nova… Quem sabe daquela atrevida com rendas e cintos de ligas… Grrrr… Suas malucas!);

7) Os direitos iguais revolveram as entranhas da sociedade (Nem quero imaginar o que isso seja! Este texto é que era coisa para revolver as entranhas de qualquer um… Se fosse levado minimamente a sério, claro!)

8) Com as mulheres a trabalhar ninguém fica em casa (“o comer” fica por fazer e a loiça por lavar… Se bem que se ninguém comeu em casa, também não há-de haver muito para lavar!)

9) As crianças são atiradas para as creches porque as mães só querem saber das suas carreiras e têm filhos cada vez mais tarde (porque, de repente, as mulheres deixaram de ter instinto maternal, de querer ser mães e de gostar de crianças!.. Tudo isto porque, algures no tempo, alguém decidiu queimar uns soutienzinhos!… Ao menos que tenham sido push up!);

10) As mulheres (suas vadias!) ficam no emprego até tarde para engatarem os coleguinhas de trabalho com quem conversam mais do que com os maridos (por incrível que pareça, isto não é parêntsis meu… As frases do Senhor conseguem bater aos pontos as minhas patetices!);

11) As mulheres já não cuidam dos seus homens (já não os recebem ao final do dia com a casa “impec”, o colarzinho de pérolas  ao pescoço e os meninos já na cama para não perturbar o descanso do senhor! Pffff…. Olha, já nem galinhas são, porque até para isto deixaram de ter utilidade!);

12) Depois, como as mulheres não tratam da casa e dos maridos, há divórcios (Queriam o quê? Daahhhh);

13) E depois as mulheres andam para aí a ter filhos de uns e de outros (tudo dito pelo próprio!… só lhe faltou o requinte de um “tipo cadelas com cio”);

14) E como há divórcios, há filhos drogados e suicídios (Claro!!! Este Senhor é de uma clarividência sem limites! Qual Messias do século XXI que descobriu todo o mal da sociedade actual! Alegrem-se os céus e a terra, o Zé descobriu o caminho da salvação!);

15) E ninguém quer falar da crise da família, que deriva da emancipação da mulher (Estou neste momento a dar graças a Deus pela existência deste Senhor que nos veio abrir os olhos! Que seria da humanidade sem este profeta?);

16) (Imbuído deste espírito quase missionário, o Senhor vai – ainda! – mais longe e faz a pergunta politicamente incorrecta que todos vocês – seus mariquinhas! – têm miáufa de fazer:) as mulheres de hoje são mais independentes, mais serão mais felizes? (Hã???  Ah pois é!!! Se não fosse este grande Senhor, quem é que punha o dedo na ferida???)

17) Lídia Jorge escrevia no Algarve onde a avó amassava o pão… E isto é que é realmente importante. (Não se vê logo?)

18) O passado não volta. (É pena, porque senão ainda ia a tempo de não escrever tanta palermice de uma vez só…. Podia guardar algumas para a próxima semana!)

 

Piadas à parte, o Senhor comoveu-me.

Tocou-me… O que é que querem? Ainda não sei bem onde, mas sinto-me tocada.

Acho tão kiduxo que vou deixar-me de formalismos e vou passar a tratá-lo por Zé… Posso, não posso, Zé?

Oh, pá, é que isto de ver alguém assim tão preocupado com a minha felicidade enquanto mulher, enternece-me! Já se viu coisa mai’ fofa???

É que o Zé está mesmo preocupado c’a gente, meninas!!!

Afinal, é o único – repito, o único! – que tem a coragem de pegar o touro pelos cornos – Ehhh, Zéeeeee! – e mexer num assunto que ninguém tem a coragem de pegar!

Zé, como me tocou no mais fundo do meu ser, vou ajudá-lo, mas, como calculará, nenhuma de nós lhe vai poder dizer se somos mais ou menos felizes do que as senhoras nossas avós porque nem nós vivemos a vida delas, nem elas a nossa… Concorde lá comigo, até a própria pergunta é palerminha… É, não é??

Mas para acalmar esse seu coração inquieto, o que lhe posso dizer, Zé, é que, tal como eu, hoje em dia há muitas mães – que são profundamente mães e mães muito dedicadas! – que também têm carreiras profissionais exigentes e até são bastante boas no que fazem… Dá para imaginar? Ás vezes, somos mesmo um bocadinho mais do que galinhas; não nos limitamos a ser úteis!

E quer saber mais ainda?? Vou contar-lhe um segredo, talvez seja melhor sentar-se para não lhe dar um treco!

O meu sonho sempre foi ser mãe, mas hoje em dia tenho uma carreira que adoro e da qual me orgulho.

Tenho a certeza até – aguente firme, Zé! – que, por poder fazer algo que me realiza como pessoa, sou melhor mãe do que seria se estivesse o dia todo em casa a trocar fraldas.

Se é difícil, Zé?

É dificílimo!!! Muitas vezes parecemos verdadeiros super-heróis a quem só falta a capa e o dom da ubiquidade!

Mas é uma escolha. E só o facto de podermos escolher é priceless… Isso incomoda-o, não é, Zé?

Temos pena! Mas não, não somos galinhas.

Depois de rir a bandeiras despregadas com a enormidade de palermices que consegue escrever por “linha quadrada”, dei por mim a ter pena do si, querido Zé.

O papel da mulher mudou, mas o do homem também. Já parou para perguntar se os homens estão mais felizes?

É que, provavelmente, também estarão porque podem, finalmente, sentir a paternidade e participar de forma activa na vida familiar, coisa que também lhes era negada pelo modelo social que, de acordo com o seu tratado social, melhor defendia a felicidade e a estabilidade familiar. Também perdeu esta parte?

Afinal, deve ser daquela geração que “não foi carne nem peixe” e, entre ser filho de pais de pré-revolução feminista e ter inalado o fumo das queimadas de soutiens na praça pública acabou por ficar… Assim.:(

Pelo menos não deu em drogado ou suicida como aconteceria se fosse filho de pais divorciados…. Valha-nos isso!

 

Quanto à questão da definição actual do feminismo, e para quem esteja, de facto, interessado em discutir o tema com alguma seriedade, aconselho seriamente o imperdível discurso da Emma Watson na ONU: https://www.youtube.com/watch?v=gkjW9PZBRfk

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

Copy Protected by Chetans WP-Copyprotect.