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Ontem o meu filho MM, de 6 anos, depois de fazer uma mini-birra porque eu ia ler a história da Cinderela – não é fácil introduzir histórias de miúdas numa casa de homens! – pergunta:

MM – Mãe, porque é que as histórias de miúdas acabam sempre com “viveram felizes para sempre”?

M – Mas são só as histórias de miúdas que acabam assim??

MM – São, nós não queremos saber nada disso!!!

Ora… Grande verdade!

A sabedoria destas palavras (não que o meu filho seja um génio, mas felizmente é muito genuíno) deixou-me “abananada”…

M – Oh filho, isso é uma grande verdade! e porque é que será?

MM – Porque nós gostamos de desenhos que sejam divertidos. Quando dizem “para sempre” é porque a história vai acabar.

(engoli em seco)

M – Grande verdade, meu amor… E sabes uma coisa? Sei que te vou amar para sempre mas, para ser mais divertido, todos os dias vos vou dizer, a ti e ao DM, que são as coisas mais importantes da vida da mãe enquanto vos dou beliscões! Pode ser? Durmam bem, meus amores.

Saio do quarto “girls not allowed” e digo para mim mesma (desculpem-me os mais sensíveis): W…T…F….!!!!

O meu filho de 6 anos já sabe aquilo que eu demorei 34 anos a aprender e que ainda não consegui absorver verdadeiramente!

A vida é feita de “hojes” não de “para sempres”.

E quando dizem “para sempre” a história acaba.

É incontornável associar isto aos divórcios (ui! há pessoas que vão ficar nervosas com o tema!), mas sejamos realistas, depois de nos divorciarmos, é impossível não associar quase tudo ao divórcio, porque tudo nos parece uma lição de vida que nos faz sentir como se tivéssemos chumbado a uma cadeira, por não termos estudado a tempo e horas.

Mas não é assim. A vida não é assim. Não há segundas chamadas, nem época de Setembro – o que é, simultaneamente, uma pena e uma bênção!

Dois anos depois do “D” (lá vamos nós chocar os mais sensíveis!) ainda estou a assimilar este estado civil…

Que (permitam-me o parêntsis) é um verdadeiro absurdo! Eu sou de direito e ainda estou para perceber a relevância jurídica desta situação específica uma vez que, para todos os efeitos, é como se a pessoa estivesse solteira.

Não sou defensora do divórcio. Não sou mesmo!

É, aliás, uma realidade que sempre pensei que não iria viver e que (ainda) me faz imensa confusão. O que é diferente de estar arrependida.

Eu assumo o meu como falha minha (ou nossa, em última análise). Não fui capaz de manter um casamento feliz (e aqui a palavra chave é, obviamente, “feliz” – verdadeiramente feliz! –  porque manter um casamento(zinho) é peanuts!!

É uma falha que assumo e – humana que sou – compreendo que seja tentador apontar o dedo às falhas dos outros, mas não deixa de ser irritante a forma como anda na boca de toda a gente que o “divórcio está na moda” ou que “hoje toda a gente se divorcia por tudo e por nada”…. Desculpem os defensores da moralidade e dos bons costumes, mas afirmações deste tipo apenas revelam uma mistura de insegurança, parvoíce, ignorância e falta de sensibilidade que, confesso, me incanita!!!

Como se fosse preciso atestar que se é melhor do que “os outros” porque se aguenta um casamento de anos e, por outro lado, que “os outros” são uma cambada de irresponsáveis (e, quando têm filhos, egoístas também!) por terem deitado “tudo a perder”. Gente, o povo é sábio e o princípio é simples: “só quem anda no convento é que sabe o que lá vai dentro”!

O que não deixa de ser um contra-senso porque os falsos moralismos tendem a aumentar na proporção directa do número de divórcios. Confesso que me espanta que aquela a que alguns chamam “a maior invenção do século XX” seja ainda tão mal compreendida, por muitos daqueles que não passaram por isso… Parece que as pessoas têm medo que seja contagioso!

Felizmente nem toda a gente pensa assim e, no meio de muitos mexericos na praça pública, ainda existem pessoas com coração e bom senso que conseguem perceber que num divórcio ninguém sofre mais do que os seus intervenientes e que o que as pessoas precisam (amigos ou familiares) é sobretudo de muito apoio.

Alguém acha, sinceramente, que a maioria (repito: a maioria) das pessoas se divorcia porque é giro? Divertido? Porque está na moda?? Ou até mesmo porque é o caminho mais fácil??

Acreditem que não é giro. Não é divertido. Não é fashion e está muito longe de ser um caminho fácil.

Acreditem que dói. Dói mesmo muito. E custa muito mais do que achamos que custa.

Não digo que não haja excepções, mas alguém com o mínimo de bom senso, não toma uma decisão destas sem uma dose considerável de ponderação e muito sofrimento. Se pensarmos bem no assunto, talvez a irresponsabilidade e a leviandade estejam, muitas vezes, mais na decisão de casar, do que propriamente na de se divorciar. Mas uma vez mais, quem sou eu para julgar?

Outro dia ouvi um pai relatar, com grande pesar, que a filha mais velha (mais ou menos da minha idade) se ia divorciar e que era uma chatice porque a família até já gostava “do rapaz” e que no Natal era ele que contava piadas e que agora vai ser chato para todos…. Pois vai. É óbvio que um divórcio afecta também as pessoas que fazem parte do círculo daquele (ex)casal.

Infelizmente! Quem me dera ter poupado esse sofrimento às pessoas que me rodeiam!

O que acho surreal é que este pai não tenha dito uma única vez que o que era verdadeiramente “chato” era o facto de a filha poder estar a sofrer.

Tendo em consideração a “incanitação” que o tema me provoca, respirei fundo e, depois de ouvir o senhor dissertar sobre a catástrofe que era deixar de ter quem escolhesse o vinho e lhe abrisse as garrafas, já que o (ex)genro era o único homem da família, saiu-me num tom mais irónico do que gostaria:

– “compreendo perfeitamente que seja difícil para todos, especialmente  tendo em consideração que o rapaz até dava um bom escanção, mas já parou para pensar que a sua filha pode estar a sofrer um bocadinho mais do que todos? Afinal, foi o sonho dela que caiu por terra…

– “Ahhhhhh… Pois…..”

Isto já para não falar dos “amigos” (e aqui as aspas são, obviamente, intencionais) que ficam verdadeiramente incomodados… Normalmente não porque vêm “o outro”  sofrer, mas porque ficam num stress desgraçado, sem saber quem é que agora vão convidar para os anos (que são já daqui a 4 meses!!!) ou como é que agora vão falar com ele se inicialmente eram do grupo dela ou vice-versa (independentemente se conviviam com os dois há mais de 10 anos)… Isto é que é verdadeiramente dramático! É espantosa a capacidade que o ser humano tem de por a terra a girar em torno de si próprio.

Tenho para mim que as pessoas nem sequer fazem por mal, mas se soubessem o quanto exponenciam uma situação que já de si é muito difícil, tenho a certeza que teriam mais cuidado. Tive a sorte de ter um divórcio muitíssimo respeitador e não deixou de ser curioso ver que houve quem tomasse dores que nenhum de nós teve e, convenhamos, não havia necessidade!…

Com o divorcio aprendi muuuuuuuuuuitas coisas.

Muitas delas, obviamente, preferia não ter aprendido, mas levei um “banho de humildade” que só me fez bem!

E há duas coisas que deixei de fazer: deixei de ter certezas absolutas e deixei de julgar os outros quando não concordava com as opções que tomavam… É sempre tão mais fácil viver a vida dos outros, não é?

Deixei de julgar. Sinto-me muito mais tolerante. E sou mais feliz porque me sinto melhor pessoa.

Não sendo uma coisa boa em si, como em tudo na vida, se estivermos atentos, há coisas boas que podemos tirar e guardar para nós. É que, quer queiramos quer não, o divórcio é um desabar de sonhos e um choque de realidade que nos deixa muito nus. Muito só nós. E quanto mais sós, melhor vemos o que importa. Ou melhor, QUEM é realmente importante.

Perdem-se “amigos” (atenção às aspas!) no meio destes processos, mas a descoberta dos AMIGOS que ficam e o reconhecimento do valor que realmente têm é uma experiência absolutamente sublime, que roça o divino… Afinal quem os terá colocado, de pedra e cal, na nossa vida? Que privilégio!

Eu sei que pode soar mal, mas no meio de muito sofrimento, o divórcio permitiu-me descobrir muitas coisas boas: nos outros; em mim; na vida.

Não sei porque resolvi escrever sobre isto, até porque já há quilómetros de linhas sobre a palavra “D” e, certamente, que as minhas não acrescentam nada de novo, mas pronto… Esta é a minha visão.

Na verdade, a culpa é do meu filho MM que ontem me fez perceber que uma das minhas grandes falhas é estar sempre preocupada com o “para sempre”.

Do MM e do Senhor Disney porque, de facto, as histórias – as de miúdas, atenção ao pormenor! – acabam sempre com um enebriante “e viveram felizes para sempre”.

O problema é que, nesse fim, a história está só a começar…

Damn you, Walt!!!

 

 

 

PS – Eu tenho a sorte de ter um divórcio que, mais do que civilizado, foi verdadeiramente amigável e, por isso, este artigo foi obviamente publicado com o prévio consentimento do meu ex-marido.

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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