Nono

Hesitei se escreveria sobre a Nono, mas entre o facto de cor-de-rosa também ser a minha cor, de também ser mãe, de ter sabido da notícia pouco depois de relançar o blogue e de ter uma confissão a fazer, achei que devia.

Há cerca de seis meses tirei o “like” que tinha feito há bastante mais tempo na página dos aprendizes da Nono. Tirei, não porque tenha deixado de gostar, mas porque me custava imenso assistir, impotente, à luta de uma criança pela vida. A vida é um direito fundamental. Não há direito que as crianças tenham que lutar por ela!

Atenção que isto não tem subjacente qualquer crítica à página em si ou à forma como a mãe Vanessa lutou, também ela, pela vida da sua filha. Nada disso. Tenho o maior respeito e admiração pela forma como ambas sempre encararam todo este processo, mas a certa altura dava por mim a chorar a cada texto novo e a ter menos esperança do que elas.

A fraqueza foi minha: eu é que não aguentei mais. E, sinceramente, não sei como é que se aguenta.

Tive uma educação católica, durante muitos anos fui animadora (convicta!) de grupos de jovens católicos e desde sempre, aquilo que mais fazia abalar a minha fé eram situações como esta. Como é que pode existir Deus e existirem também crianças que morrem ou filhos que morrem antes dos pais? Parecem-me realidades incompatíveis e inconciliáveis.

SE existir Deus, como é que estas coisas são “permitidas”???

No dia 27 de Agosto de 2010, o meu filho mais velho desapareceu na praia durante um longo período de tempo. Ele tinha 2 anos, mal falava, não tinha medo do mar e a praia estava a abarrotar de gente por todo o lado. Foram cerca de 40 minutos que me pareceram anos e que deram para pensar nas coisas mais horríveis que alguma vez me passaram pela cabeça. Achei que nunca mais o veria. A certa altura, acho mesmo que deixei de respirar… Queria morrer, mas tinha um bebé de 8 meses no colo e só pensava como é que iria conseguir continuar… por ele.

Ainda hoje não sei se a minha história teve um final feliz ou se fui abençoada por um milagre e, desde esse dia, ainda não consegui decidir se acredito em Deus.

Se há coisas que me levam a acreditar que sim (como o meu filho ter aparecido “do nada” trazido por uma senhora que nunca vi e que, sem saber, me salvou a vida!), há outras – como esta da Nono e de todas as crianças que passam pelo mesmo – que me fazem achar seriamente que não.

Não é a primeira vez que sabemos de alguém que perdeu um filho (e as histórias são sempre desumanas!) ou que sabemos que uma criança morreu de cancro ou de outra doença igualmente cruel. É real. Existe. O que eu ainda não consegui perceber, é como é que há pais que passam por isso… E aguentam.

Não tenho por hábito cultivar ídolos, porque acho que, em última análise, somos todos eminentemente humanos. Como todas, esta minha “regra” tem uma excepção: todos os pais que já passaram por situações destas… E aguentaram.

Foram todas essas mãe e todos esses pais que aguentaram – e continuam a aguentar, porque imagino que seja diária a luta da vida após a morte de um filho – que me fizeram escrever hoje para lhes prestar a minha homenagem, revelar a minha sincera admiração e confessar que eu não sei se aguentaria.

Não é uma questão de idolateralização, mas acho sinceramente que há algo de sobre-humano nessas pessoas (e penso em pessoas concretas!). Talvez Deus exista mesmo e lhes dê força… para aguentarem.

Na via das dúvidas, hoje vou rezar por todas estas pessoas, em especial pelos familiares da Nono. Para que tenham muita força… E consigam aguentar. Sempre. Pelo menos até ao dia em que vão poder voltar a abraçar os filhos. E nisto, acredito piamente.

mary

Mary – esta personagem que me permite soltar a minha veia de “jogador da bola” e falar na terceira pessoa! – mas cada vez mais tenho procurado abolir os rótulos da minha vida. Posso acrescentar, ainda assim, que a Mary é uma mulher na (fabulosa!) casa dos 30, mãe convicta de dois filhos que ama de paixão e com uma profissão que lhe dá imenso gozo.

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